segunda-feira, 30 de junho de 2008

O Muro e a Frida


















Estava eu um dia desses descendo Santa Teresa, por volta das quatro horas da tarde, o dia estava com um feixe de sol bem intenso e as cores na rua estavam bem fortes. De repente foi por isso que Ela ficou tão aparente naquele muro, que é mais fácil passar despercebido.
É engraçado isso, como a cidade é cheia de cicatrizes vivas e coloridas na sua pele, nos muros e paredes, e apesar dessas feridas estarem latejando, nós simplesmente abaixamos os olhos e as deixamos lá, morrendo...
E foi nesse dia Santa a baixo, que passei pela escadaria da Lapa e vi Frida, toda em lilás, no meio de uma pilastra toda branca. Naquele momento me lembrei de toda arte de Rivera, Orozco, Siqueiros e dos muralistas e sua tática de plasmar a arte revolucionária pela cidade.
Com certeza aquela era a "obra" do ano. Era o meu achado no mundo saturado das imagens clichês das galerias, das revistas, da televisão... E ela estava lá, em aberto, era um muro em constante movimento, já que aquele espaço não necessita de muitas regras pra ser usado, e que ele está para todos que passam e param, uns poucos segundos, para olhá-lo.
Apesar de a cidade estar toda marcada, Frida me chamou atenção por muitos motivos, e o primeiro deles é que ela é uma Mulher, e só de ela não estar com uma bunda enorme virada pra mim, já era um alívio. É um tanto quanto constrangedor para nós mulheres ver que somos um ótimo acompanhante pra cerveja, as vezes melhor que o amendoim. Mas voltando na questão do muro, Frida poderia estar falando mais uma vez sobre todo aquele sofrimento que sentimos no corpo, e disso ela poderia falar muito bem, da cidade como o espaço largado, as veias entupidas do descaso estatal e contaminada por nós, vírus ambulantes, sangue podre, que corre, e como corremos, embolotado. Como nossa coluna vertebral está rompida e já não temos muitas motivações no espaço público, nas coisa públicas.
AH, Santa Frida, rogai por nós com seus sábios olhos de dor e expressão, rogai por outras maneiras de expressão, que nossa cidade fique mais cheia de marcas e que essas não passem despercebidas. Que nossos muros não sejam um painel de sangue de meninos e meninas, mas estejam cheio de tinta. E que a gente possa esquecer na bebida o que não estiver em nosso alcance, mas que nunca desistemos...
E de uma mera pintura no muro, transformei Senhora Kahlo em Santa Frida, acho que nosso vazio contemporâneo é cotidianamente preenchido por pequenas motivações, se a Arte cumprir esse papel, quero que ela esteja por toda cidade.
Texto:Mimmesma.
Imagens: Mimmesma
Frida: Tássia Alessandra

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